Morreu CARBONO CASIMIRO

CARBONO CASIMIRO, IN MEMORIUM

1.
Nunca fomos tão próximos. Excepto o facto de sermos ambos animais de duas patas, cérebro e raciocínio. Gado do mesmo solo pátrio, com as mesmas insígnias no BI, a mesma inclinação para desfiar emoções quando o hino nacional toca, para chorar quando os palancas negras perdem uma partida de futebol, para sorrir quando batiamos todas seleções africanas de basquete e/ou chatear-se quando certos senhores feudais acumulam exagerada e injustamente no bolso o muito que a todos angolanos pertence, ao passo que outros minguam à fome e ao relento.
2.
A arte soube ser um soro para ambos. E por decreto dela estabeleceu-se entre nós certa consanguinidade. Porém, a proximidade que tivemos (breve), meramente circunstancial, (mas de todo oportuna) foi acidental. Deveu-se à prisão dos 15+2.
3.
Estivemos juntos no Elinga Teatro a gritar pela libertação dos manos. Voltamos a estar juntos no anfiteatro da Rádio Despertar alguns meses depois, numa atividade organizada pelo Rafael Marques e a RD. Sempre a gritar em prol da libertação dos brothers, não obstante o cinismo do centro hegemônico e a indiferença estratégica e instrumental da esmagadora maioria da manada.
4.
A última vez que falamos, (ao telefone & e-mail) encontrava-me na Huíla. Era para solicitar o tema que eu tinha gravado, para então inseri-lo num CD composto por vozes várias, sempre em prol da liberdade aos 15+2, cujos valores reverteriam em favor da causa.
5.
Felizmente, um pouco depois, os manos saíram em Liberdade. Mas como o destino é traiçoeiro e o futuro é um departamento armadilhado ao qual nenhum de nós terá acesso, os números 18-11-2019 saíram-me na rifa como combinação do azar. O Mano Carbono Casimiro decidiu descer do palco.
6.
Largou o microfone e deixou no anfiteatro um silêncio para fins de repertório. Subiu o pano e a bilheteria fechou. Quem pagou o bilhete para o ver jamais o verá. E quem afinal lhe quisesse mal terá de guardar de volta todo seu ódio. E o que faremos com amor que lhe era dedicado?
7.
Não me cabe perguntar quem desistiu antes… se ele ou a vida. O que é certo é que, hoje o meu dia anoitece mais cedo, mais um bocado, mais amargo, mais intragável.
8.
Carbono Casimiro partiu sem ver a Angola prometida.
9.Se do outro lado do muro houver enfim vida, se é que quem parte ainda se presta a ouvir os rugidos que deste lado da lagoa troamos, junto o meu ao de muitos.
10.
Certo de que, a ponte das emoções sempre pode ser atravessada nas duas faixas de rodagem. A nossa mala está sempre pronta, mano. Ao destino ninguém engana. Ele conhece o endereço de todos e o de cada qual.
Se ainda te lembras do meu rosto de capim em chamas, escreva-me um poema húmido para este endereço: vida&luta-pátria-em-luto@choramosporti.ponto.com
DESCANSA, MANO!
Fridolim Kamolakamwe